Conteúdo participativo entre canais é criado em contextos em que o publico tem papel ativo na coleta e análise de informações, na produção editorial (transformação das informações em conteúdo), na distribuição do conteúdo produzido e na sua recepção. Nem sempre os participantes de um processo estão presentes em todos. E as unidades de informação, embora articuladas, ficam independentes entre si.

Embora possa ser criado em qualquer canal, o conteúdo participativo é produzido de forma bastante ágil entre canais digitais, como redes sociais, wikis, blogs, arquivos de imagens, vídeos, áudios, favoritos, programas de autoria coletiva. É produzido em diferentes dispositivos.

Assim, um texto pode ser esboçado num blog por um autor num smartphone, ganhar imagens criadas de outras pessoas em um tablet, ser comentado por usuários de vários dispositivos, virar um ebook de autoria coletiva, com uma página no Facebook, hashtag no Twitter. Em alguns casos, virar um filme, livro impresso, uma exposição para visitação presencial.

A participação em projetos coletivos implica no envolvimento direto dos componentes com objetivos comuns, em ambientes favoráveis à criação e ao compartilhamento, com lideranças aceitas pela maioria. Segundo Henry Jenkins, é possível fazer parte de culturas participativas por meio de:

Afiliações

Alinhamento em torno de comunidades formais ou informais, com uso de redes sociais como Facebook, MySpace, Instagram, ou painéis de mensagens, jogos, comunidades profissionais.

Expressões

Produção de peças criativas, como samples digitais, capas para programas ou dispositivos (skins), vídeos, ficções, revistas, programas com funcionalidades combinadas (mash-ups).

Solução de problemas

Trabalho conjunto em equipes formais ou informais, para realizar tarefas e criar conhecimento novo, como na Wikipedia, equipes profissionais (com uso de textos – relatórios, atas, contratos, propostas –, apresentações, planilhas, videoconferências, vídeos e áudios) ou jogos.

Infográfico publicado para comemorar os 20 anos do Linux. Fonte: http://mashable.com/

Infográfico publicado para comemorar os 20 anos do Linux. Fonte: http://mashable.com/2011/04/06/linux-20-anniversary/

O sistema operacional Linux é outro exemplo maravilhoso de colaboração vitoriosa em todo o mundo. Tudo começou em 1991, quando Linus Torvald, jovem finlandês de apenas 19 anos, fez um apelo mundial pela internet, pedindo a colaboração gratuita de todos os desenvolvedores de software, com o propósito de criarem o Linux, um novo sistema operacional para computadores, aberto, livre e gratuito. Para surpresa dos céticos, Torvald obteve a colaboração de milhões de desenvolvedores em todo o mundo e o Linux foi adotado até pela gigante IBM. Em minha casa, meus computadores domésticos estão interligados em rede por um software Linux. Quer mais exemplos de colaboração vitoriosa? Ei-los: o YouTube, o GPS, diversas redes sociais, a começar deste Facebook.O sistema operacional Linux produto coletivo, que começou a ser desenvolvido em 1991, quando o finlandês Linus Torvald fez um apelo pela internet, pedindo a colaboração gratuita de desenvolvedores de software, para a criação do sistema operacional aberto, livre e gratuito. Torvald obteve a colaboração de milhões de desenvolvedores em todo o mundo e o Linux foi adotado até pela gigante IBM.

Circulações

Criação coletiva de fluxos em mídias, como podcasts, blogs, arquivos gerados em programas de autoria coletiva (como o Google Drive).

Os participantes se deslocam entre livros, filmes, sites, comunidades, fontes com diferentes perspectivas e referências. Criam conteúdo novo, novos sentidos, a partir da combinação de amostras e unidades de informação.

A produção coletiva de conteúdo articulado em diversos formatos está presente na consulta e na produção de conhecimento. O trânsito entre formatos é feito por meio de buscas, na edição e na disseminação de informações.

Algumas questões

DNA colaborativo

A criação coletiva em diversos formatos flui quando os participantes estão envolvidos com objetivos em comum, e estão familiarizados com o uso das ferramentas de autoria. Quando uns sabem editar vídeos e outros não, por exemplo, é comum que os que sabem acudam os quem não sabem e se disponham a ensiná-los. A perspectiva participativa é bem sucedida em ambientes colaborativos.

Num grupo de aspirantes a roteiristas de cinema, a publicação de textos abertos a contribuições, em que se publique detalhes de cenas em vídeo ajuda os participantes a dominar várias linguagens, a construir blocos de narrativas, e exercita a capacidade de leitura e de argumentação.

Articulação semântica entre fragmentos/formatos de conteúdo

A criação de sentido entre informações com diferentes autores, em diferentes formatos, é uma costura que demanda familiaridade com as linguagens, habilidade para criar coerência com uso de ferramentas, bem como facilidade para seguir o fluxo de informações e narrativas.

Se um grupo de universitários precisa fazer uma pesquisa sobre o consumo de notícias na classe C, pode precisar registrar entrevistas em textos, criar planilhas com estatísticas, gravar vídeos com entrevistas. Estas informações, coletadas com objetivos comuns, existem independentemente umas das outras e são articuladas pelos integrantes para permitir uma leitura relacionada aos resultados da pesquisa. Podem também ser vistas por um leitor/espectador externo ao projeto e articuladas de acordo com a sua interpretação.

O site My Pop Studio estimula adolescentes do ensino médio a refletir sobre as mídias que consomem, estimulando as moças a assumir o papel de produtoras de músicas, de programas de televisão, de revistas de celebridades, de publicação em redes sociais. As usuárias podem fazer o projeto de uma estrela pop, reeditar os vídeos de um programa de TV, fazer o design de uma revista. Este trânsito entre tipos de conteúdo e formatos as levam a refletir sobre os fatores que influenciam a produção cultural, como estes influenciam suas demandas pessoais (como o desejo por uma determinada estética corporal ou a afinidade por certas músicas).

Temporalidade da recepção

As unidades de informação de uma coletividade são produzidas nos tempos de cada um, de acordo com a disponibilidade pessoal e técnica (ferramentas disponíveis num determinado momento). Muitas vezes um fragmento está no Youtube, outro num blog, outro no Instagram. Se um grupo de criadores está criando uma história coletiva, em que tempo as peças de cada um se encaixam? A recepção se mantém em renovação, junto com o tempo da criação, e a instabilidade é uma característica do produto.

Identidade (autoria, presença) fluída

Os participantes, mesmo identificados, podem assumir identidades diferentes de acordo com o produto que estão criando, ou o grupo de que participam. Em jogos coletivos, as identidades são assumidas para experimentação, descoberta. Em projetos profissionais, o líder de um projeto pode se destacar num ambiente que demande boa redação de textos e ficar escondido em outro que valorize a participação em conferências.

Os participantes se deslocam entre comunidades, sabendo entender as características de cada uma, os pontos de vista dos integrantes, como lidar com as linguagens/formatos específica/os adotada/os para fazer parte do processo de criação comum.

 

A produção de conteúdo entre canais inclui modelos mentais adaptados a diversas técnicas e formatos de informações. Inclui também a percepção articulada do seu encadeamento, através de processos editoriais. O trânsito crítico entre as unidades abre caminhos para o estabelecimento de interlocuções criativas e processos criativos que se inventam de acordo com as características de cada problema.

(Publicado em 6.4.2015.)

 

Referências

Participatory media (Wikipedia, acesso em 6.4.2015)

Confronting the chalenges of participatory media (MIT Press, acesso em 6.4.2015)